Mostrar mensagens com a etiqueta Educação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Educação. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O esgotamento dos modos antigos (e não apenas...)

Em muitos anos de convívio com a vida política tenho a presunção de acreditar que a ideia de mudança parece ser, de facto e pela primeira vez, uma IDEIA.

"Chegou ao fim um certo tipo de governação", disse o novo Primeiro-Ministro. E poderia prosseguido a dizer que um novo ciclo se iniciaria, que as coisas iam ser diferentes, que iriam mudar ou que a partir de agora se iniciava um novo ciclo político com outra atitude. E poderia ter dito umas quantas outras coisas a que nos habituámos a escutar nestas ocasiões e que consagrariam uma mudança de forma com a manutenção dos conteúdos. Mas não disse e ainda bem que o não fez.

Antes prosseguiu afirmando que chegou ao fim "um certo entendimento da relação entre o Estado e a Sociedade." Esta esclarecida afirmação anuncia que uma ideia, um conteúdo - e não meramente uma forma - se esgotou.

A afirmação de mudança que deixámos que se enraizasse na sociedade ocidental, principalmente (mas não só) no que diz respeito a alternâncias governativas, tornou-se num desejo de que as coisas melhorassem sem que de facto estivéssemos disponíveis enquanto sociedade para mudar verdadeiramente as coisas. Assim, por longos anos as sociedades ocidentais se foram contentando em mudar de interlocutores, de rótulos, de bandeiras ou de partidos políticos sem que quisessem de facto mudar a sua visão da vida.

Desta vez pode ser diferente. Um pensamento, uma ideia e uma estrutura sucumbiram ao teste da realidade. Uma realidade tornada mais evidente ao olho comum pela crise e que nos torna mais conscientes da verdadeira dimensão das mudanças necessárias. Mudar o interlocutado e não apenas o interlocutor; mudar a estrutura e não apenas a conjuntura; mudar o conteúdo e não apenas a forma. Disse, esse novo Primeiro-Ministro, que "A crise que hoje atravessamos mostrou o esgotamento dos modos antigos". "Antigos" e não "anteriores".

Não se fecha um ciclo de seis anos, nem de dez, nem tão pouco de vinte ou trinta. Muito mais do que os modos anteriores - ou do(s) governo(s) anterior(es) - são os "modos antigos", usados para implementar ideias antigas, falhadas, e sem sustentação real e moral possível, que urge eliminar. Digo eliminar e não alterar, pois uma alteração de consciências apenas pode ser operada por cada um de nós. Não cabe a nenhum governo operar nem conduzir essa alteração. Cabe-lhe, isso sim, abrir caminho e destruir as barreiras que se foram criando ao longo de muitas décadas sob o eufemismo de "protecções". É necessário "formatar o disco" para que cada indivíduo possa perceber a mudança que tem de operar em si mesmo. Só em campo aberto, com jogo limpo, sem interferências ou favorecimentos artificiais é que cada um de nós poderá ajuizar da mudança, mudar livremente e colher consequentemente o produto desse processo individual. Tem de ser este o novo relacionamento entre o Estado e a Sociedade.

Gostei. Deu-me alento. Em muitos anos de convívio com a vida política tenho a presunção de acreditar que a ideia de mudança parece ser, de facto e pela primeira vez, uma IDEIA.

É preciso no entanto evitar o maior obstáculo que se nos depara neste caminho: não deixar que uma IDEIA se transforme , como nos "tempos antigos", em idealismo. Para Aristóteles as ideias provêm duma experiência sensorial entre o indivíduo e a realidade. Uma ideia apenas pode ser formada pela interpretação da mente do indivíduo dos fenómenos que observa e verifica. Uma ideia deve constituir uma assimilação do saber e nunca a sua projecção. Não há duas mentes iguais, logo não pode haver ideias universais. Este princípio levar-nos-á ao REALISMO, em oposição ao idealismo platónico. A filosofia política é, neste contexto, essencial.

Precisamos de esclarecer muitas almas (como as 200 mil que hoje se manifestavam frente ao parlamento da Grécia) que só nos emprestam dinheiro se explicarmos como vamos pagar. Que ou arranjamos forma de pagar o que já devemos e o que ainda vamos pedir, ou ninguém nos empresta coisa nenhuma. Que se não pagarmos o que devemos, ou se não cumprirmos o que acordámos, ninguém nos empresta coisa alguma. Que só vale a pena chantagear um credor se formos auto suficientes para o dispensar. Que cada um de nós tem uma decisão pessoal e intransmissível a tomar: ser parte da solução, ou ser parte do problema; ser elemento criador, ou rufia destruidor; ser Homem ou simplesmente não O ser.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Learn the truth

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sociedade ou saciedade? O estigma da solidariedade...

Um por todos e todos por quem?

Já que o tempo para a escrita e desabafos escasseia - uma vez que nem todos podem disfrutar da solidariedade social e têm mesmo de fazer alguma coisa pela vida - desta feita aproveitarei uma mensagem alheia (que me chegou por mail) e que ilustra bem o caminho que nos vem sido traçado desde os primórdios do "estado social".
Foi-me enviada como verdadeira por um amigo e aqui fica:

Um professor que nunca tinha reprovado ninguém, reprovou numa ocasião uma turma inteira.

Foi num curso de economia. A turma insistia que o socialismo era praticável e que através da simples cooperação tendo em vista um bem comum, se obteria um resultado mais igualitário e justo do que aquele que se obtinha através dos mecanismos de competição e emulação.

Ou seja, sustentava a turma que o socialismo era mais eficaz e justo que o capitalismo.

O professor argumentou em vão pelo que, já em desespero, propôs a seguinte experiência:

Fariam os testes habituais, e a nota atribuída a cada um seria a média da turma. Os alunos aceitaram de imediato.

Todos tinham agora um objectivo comum e o resultado não poderia deixar de ser igualitário e justo.

No 1º teste, a média foi 15.

E aqui começaram os problemas. Aqueles que tinham estudado e a quem o teste tinha corrido bem, e que legitimamente podiam esperar um19 ou um 20, ficaram a remoer o desagrado.

Aqueles que nem sequer tinham pegado no livro, resplandeciam de felicidade e louvavam o socialismo. E a verdade é que se provava que todos passavam e com uma boa nota.

No 2º teste os que antes tinham estudado e feito bons testes, entenderam naturalmente que não necessitavam de se esforçar tanto. Já que iam ter 15 no máximo, escusavam de se matar a estudar. Os que antes não tinham pegado nos livros, mantiveram as mesmas opções. Não era necessário, a boa nota estava garantida.

Como é evidente, a média baixou para 11 e aí já ninguém ficou especialmente satisfeito. No teste seguinte a média foi 8.

Instalou-se a desavença, fizeram-se acusações de sabotagem, de egoísmo, de falta de solidariedade, etc.

O resultado foi que ninguém mais queria estudar para não beneficiar os outros. E a turma reprovou.

Não sei se isto é verídico, mas, mutatis mutandis, foi basicamente o que aconteceu nas cooperativas agrícolas soviéticas, portuguesas, etc.

Moral da História:

Sem recompensas individuais, não há incentivos duradouros ao esforço. Tirar aos que se esforçam para dar aos que não se mexem conduz, mais tarde ou mais cedo, à discórdia e ao fracasso, porque quando metade de um grupo interioriza a ideia de que que não precisa trabalhar, pois a outra metade irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim .

O sistema de impostos progressivos e a inflação de subsídios "sociais", são os instrumentos privilegiados desta loucura socializante.

Obrigado ao António Farrajota, por esta "oportunidade de partilhar"...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Duelo literário

Aproveitei a tarde de hoje para espreitar a Feira do Livro Antigo e do Alfarrábio no Mercado da Ribeira, por onde também passou - porque o vi - Paulo Branco, quiçá procurando fontes para futuras produções.

Na generalidade, uma boa exposição literária. A minha mais nova (6 anos) apareceu com um livro de dinossauros todo artilhado e, não por coincidência, dos mais caros. Daqueles livros em que uma imagem da besta é sobreposta pelo desenho do seu esqueleto numa folha de acetato e, entre ambas, uma simples folha branca. A pequena puxava a folha para fora e via o dinossauro no seu ambiente. Empurrava para dentro e, vendo apenas o esqueleto, exclamava contente: "Olha Pai: magia!!!"

Quando lhe mostrei a folha de acetato separada do desenho das bestas, explicando como a coisa funcionava, exclamou com toda a indignação que os seus 6 anos lhe podiam permitir: "Oh, estão-nos a enganar!". E lá foi toda lampeira, para alívio da carteira familiar, buscar um livro sério e sem excentricidades no preço.

Como feira de livros antigos, o que nos lá levara, não se pode dizer grande coisa: nada de grandes raridades e umas quantas (poucas) curiosidades históricas. Encontrei, isso sim, algo de que gosto particularmente: livros usados. Usados e não livros em 2ª mão. Se há coisa que detesto são livros que ninguem lê, ou que ninguem usou. Para isso prefiro novos. Usado é isso mesmo: lido, manuseado, marcado, sublinhado, anotado, rabiscado e outras coisas acabadas em "ado" que possam transmitir a sensação de que alguém, uma mente humana, dali retirou algo.

Adquiri 2 reliquias por 3 e 2 euros respectivamente: "A situação das ciências do homem no sistema das ciências" de Jean Piaget e "A brief History of Time" do físico teórico Stephen W. Hawking. Nada de especial pela edição em si mas que me chamaram a atenção pelas passagens fortemente marcadas a tinta pelos seus anteriores proprietários.

Das palavras de Stephen Hawking, a mente que o leu anteriormente destacou, a feltro cor-de-rosa, as seguintes passagens (traduzidas do inglês):

O sucesso das teorias científicas, em particular Newton e a gravidade, levou o francês Marquis de Laplace a defender, no inicio do sec. XIX, que o universo era completamente determinista. Laplace sugeriu que deveria haver um conjunto de leis científicas que possibilitassem prever tudo o que pudesse acontecer no universo.(...) Se soubermos a posição e a velocidade do sol e dos planetas num dado momento, podemos usar as leis de Newton para calcular o estado do sistema solar no futuro. PArece obvio neste caso, mas Laplace foi mais longe e assumiu que haveria leis a reger tudo o resto, incluindo o comportamento humano.

(...) As implicações [da teoria quântica] no determinismo só foram compreendidas em 1926, quando o alemão Werner Heisenberg formulou o seu famoso príncipio da incerteza.(...) para prever a futura posição e velocidade de uma partícula, temos de medir o sua actual posição e velocidade de forma exacta. A maneira de o fazer é incidir luz sobre a partícula (...) Contudo, segundo a teoria quântica, teremos de usar pelo menos um quantum de luz (...) que irá afectar a partícula e alterar a sua posição e velocidade de forma imprevisível(...)

O principio da incerteza de Heisenberg é uma propriedade fundamental e inevitável do universo

Aplicando o príncipio da "Razão de Occam", Heisenber, Erwin Schrodinger e Paul Dirac reformularam a mecânica numa nova teoria, baseada no principio da incerteza: a mecânica quântica.

Com efeito, [a mecânica quântica] tem sido um estrondoso sucesso e está na base de quase toda a ciência e tecnologia moderna

Na página 78 da relíquia Jean Piaget, uma outra mente sublinhou vincadamente a esferográfica vermelha o seguinte (no contexto da descentração no método científico):

(...) a descentração consiste já em não partir do pensamento individual como fonte das realidades colectivas, mas em ver no indivíduo o produto duma socialização.

Comparando, do mesmo modo, os desenvolvimentos multiplos da macroeconomia nos começos da ciência económica, com Adam Smith ou Rousseau, ficamos espantados com a descentração que se efectuou a partir desta abstração que era o homo economicus, imagem do individuo em certas situações sociais restrictas e muito especializadas: tanto na doutrina marxista da alienação, como nas análises probabilísticas e estatísticas de Keynes ou da econometria moderna é impossível não encontrar esta dimensão fundamental da descentração comparatista

Curiosa resposta foi dada pela mão que empunhou aquele feltro cor-de-rosa que, na página 73 da obra de Stephen Hawking sublinhou:

Poderá haver anti-mundos e anti-pessoas, totalmento compostos por anti-particulas. Contudo, se algumas vez encontrar o seu anti-eu não lhe aperte a mão.

Apetece-me gritar como a minha pequena: "Oh! Estão-nos a querer enganar". Vai ser curioso analisar as diferentes ideias que cada mente retirou de cada livro que leu. Estes dois serão, sem duvida, lidos em parelha. Com especial curiosidade e interesse naquele feltro cor-de-rosa...

terça-feira, 23 de junho de 2009

A escola, o negócio e o bobo

Na passada sexta-feira foi a festa de final de ano na escola da minha filha. A bem dizer na escola dos meus filhos, uma vez que andam os dois no mesmo agrupamento mas, por um lado porque o mais velho não preparou qualquer actuação e por outro porque a mais nova era finalista do Jardim de Infância, familiarmente a festa acabou por ser um pouco por causa da pequenita e do seu diploma.

Aquelas festas habituais em que os miúdos nos mostram as suas habilidades e em que eles, nós e as educadoras e/ou professoras andamos babados por um bom par de horas, deram lugar a mega festivais ao estilo "Super Bock, Super Rock" em que reina a confusão e ninguém se entende.

Quando a ideia surgiu neste agrupamento, há três anos, foi apresentada como uma festa da comunidade educativa e, de caminho, uma forma de angariar fundos para a compra de uma carrinha de apoio às actividades com os alunos. Adepto que sou duma forte relação escola-comunidade, aderi e apoiei a ideia desde a primeira hora. A par de outros pais e encarregados de educação, por várias vezes tentei participar e ajudar no que fosse necessário mas, por qualquer estranha razão, a ajuda parecia não ser necessária nem benvinda.

Chegado o dia desse primeiro "arraial" percebi porquê: garantida que estava a mão-de-obra e como a ideia era que se gastasse lá a guita, a ajuda e envolvimento da comunidade eram consideradas um desvio à planificação estratégica e ao marketing. Os "profs" serviam a malta e a relação escola-comunidade ficava de lado mas ainda assim safava-se a festa dos mais pequenos e a carrinha... que lá se comprou depois do "arraial" do ano passado.

Este ano foi o 3º "arraial" e já nada tem de festa escolar. Mesmo sem carrinhas para comprar, o apelo do dinheiro fala tão alto que, por este andar, o financiamento do Ministério da Educação para esta escola poderá brevemente ser dispensável. Feita apenas à custa do esforço dos professores num quadro de mão-de-obra gratuita, quase escrava, recrutada quiçá sob que pretextos ou coações e engalanada com pomposos discursos e "mimos" entre a edilidade e a directoria, a festa fica envolta num binómio presa-predador onde uns brilham e colhem os méritos do trabalho arrancado aos outros. Não se vê envolvimento algum da comunidade à excepção do consumo a que são obrigados e incentivados: desde um bilhete de entrada exigido também aos alunos que actuam e aos professores que trabalham, ao folclore dos artistas convidados que põem e dispõem do programa para maximizar o negócio.

Entre as presas e os predadores ficam os que, como eu, se sentiram uns bobos a tentar vislumbrar as actuações dos seus filhos e a festa da escola. Um esquema multi-palcos que juntou à confusão dum "Super Bock, Super Rock" a dispersão dum "Rock in Rio" serve o propósito de relegar as crianças, que pelos vistos incomodavam a festa, para a "porta dos fundos" ou, como ouvi referirem, para a "festa dos pobres" onde só elas e as respectivas famílias podiam ver e ouvir, e ainda assim mal, aquilo que mais importava.

Talvez por isto o mais velho, já no 2º ano, não tenha preparado nada para apresentar. Eu sei que, se porventura fosse o seu professor, não o faria passar por isso. Valeu que a pequenita ainda não se apercebe destas coisas. Para o ano, se cá estivesse, pedia o diploma por via postal. Ainda bem que não vou estar. Para bobo já bastou duas vezes: ter acreditado numa boa ideia original que foi brutalmente desvirtuada e ter assistido ao repasto predatório.

terça-feira, 5 de maio de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

O futuro está mais claro

Hoje fui atingido pela emoção como há algum tempo não me acontecia. Ainda que apenas uns, infelizmente ainda muito poucos, podemos afirmar que lentamente as novas gerações começam a questionar as decisões da governação. Quem disse que a crise não trazia também coisas boas? Coisas muito boas, digo eu?

Realizou-se ontem a sessão deste ano do Parlamento dos Jovens, com a presença, claro, da Sr.ª Ministra da Instrução - ups, perdão, da Educação!

Na bagagem levavam perguntas efectivamente relevantes que infelizmente nenhum dos deputados (230!) foi capaz de colocar por altura das respectivas discussões de cada um dos assuntos. Se este dado não é revelador da qualidade da casta política em Portugal não sei o que será.

Mas afinal que perguntas fizeram estes pequenos mas VERDADEIROS REPRESENTANTES dos cidadãos?

Sobre o provedor de justiça:

Tendo em conta que o actual provedor de justiça já está quase há um ano à espera de ser substituido, não seria melhor alterar na constituição o método de escolha deste orgão, por exemplo, passando a ser o presidente da república a nomeá-lo?


Sobre o BPN:

Qual é o objectivo de nacionalização do banco privado BPN, após o buraco financeiro que ele próprio criou?


Sobre o sistema eleitoral para a Assembleia da República:

Os senhores deputados acham que representam as pessoas do vosso distrito que os elegeram? A quem é que estas pessoas vão tirar satisfações quando nem sequer sabem quem escolheram para as defender? Não acham melhor que os circulos eleitorais sejam uninominais?


Sobre a crise e a gestão de recursos do estado:

Numa altura em que vivemos num periodo de crise em que a poupança é cada vez mais indispensável, não faria mais sentido juntar pelo menos duas das três eleições a decorrer este ano?


(...)Se precisamos de um grupo de pessoas que, à semelhança de Oliveira Salazar, consigam recuperar a economia em Portugal e que tenham o mesmo tipo de capacidade de gestão financeira que Oliveira Salazar.


Mas descansem as almas porque, ficámos a saber, a senhora Ministra fez questão de demonstrar aos "pequenos" que estava muito preocupada com... o que eles comem ao almoço!!!

Que pena tenho que estes jovens não se possam eles candidatar... Em vez de políticos gastos e inúteis que assobiam para o lado sem pudor, mesmo quando lhes descobrem a careca. Aparentemente não houve uma - sim, nem uma - resposta digna de figurar na reportagem.

Não acreditam? Oiçam vocês mesmos:

sexta-feira, 27 de março de 2009

É meu!

Ao que parece, os Magalhães andam a ser vendidos pelos proprietários. O Ministério da Educação afirma que não tem conhecimento.

Eu pergunto: e se tivesse? Que é que fazia? Então um proprietário já não pode dispôr da propriedade como deseja? Então é proprietário de quê?

Se não queriam dar não dessem, até porque ninguém pediu. Se deram, está dado. Metam a viola no saco e acabou.

Ainda a exemplo do Magalhães, devo dizer que sempre fui e continuo a ser contra a dádiva gratuita. Mas não vá o Ministério sondar o meu IP e a escola do meu filho que não é preciso pois afirmo já aqui e agora que sim, requisitamos um.

Os pequenos Magalhães estão há venda por 350,oo em qualquer loja da especialidade. No que respeita aos oferecidos nas escolas, foram pagos por todos nós, tanto por mim como pelo leitor.

Mas ao contrário de muitos leitores que não quiseram ou não puderam requerer um, eu obtive um produto cujo valor de mercado é 350.00 pagando apenas 50.00. Logo, ao contrário de quem não o fez, eu recuperei 300.00 do pagamento que me foi tirado à força.

Devo também acrescentar que vi-me forçado a fazer "reset" da dita máquina para os parâmentrros de fábrica assim que ela chegou. Então não é que o dito Magalhães não deixava criar "users" aleatórios e estava limitado a "Administrador" ou ao nome do meu filho?

Esta moda da propriedade condicionada e transformada em usufruto está a pegar. Enfim, com o "reset" lá conseguimos criar "usernames" para toda a familia. Sim, porque um portátil dirigido a uma criança de 8 anos é necessáriamente uma ferramenta para TODA A FAMÍLIA.

Um dia, se o quiser vender, reservo-me todo o ditreito de o fazer. Afinal o "bicho" ou é nosso ou não é. E se não for, que o venham buscar e me devolvam os 50.00 (acrescido de juros e indemenização por perdas e danos expectáveis).

sexta-feira, 6 de março de 2009

Educação (Razão) a pataco

Enquanto "pai esclarecido" acho que devo deixar os seguintes comentários ao video aqui reproduzido:

1. Esta análise é extensível a um periodo muito mais largo do que os "4 anos de Sócrates";

2. Não considero a redução do investimento em educação um problema, pois acredito que num sistema com maior autonomia e liberdade se pode fazer mais e melhor, quiçá com menos gasto;

3. Os principais problemas aqui focados tais como: a desaquação do sistema à vida activa, o perigo das propostas tendentes a eliminar as "reprovações", ausência completa de autonomia e liberdade (que deve ser concedida não só à escola mas a toda a comunidade que esta serve), que faz com que a avaliação seja "apenas uma" das questões fundamentais da educação em Portugal, pois é necessário saber o que queremos avaliar.

4. Subscrevo as soluções apresentadas: seriedade, competência, autonomia, liberdade e uma cultura de que aprender implica esforço; e reforço a certeza de que "quando o cérebro deixa de ser usado, os resultados são desastrosos" ou, por outras palavras, sem Razão não haverá Pão... apenas fome.

Leitura adicional: O Desastre do Estado Educador, por João César das Neves

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A culpabilidade das vítimas

"Professores utilizam alunos na luta política" era o título sugestivo do comunicado da CONFAP que recebi hoje. Parecia prometedor mas... afinal referia-se apenas à decisão tomada por 143 professores e educadores de Paredes de Coura de cancelar a "quase totalidade das actividades previstas para este ano lectivo que envolvam a comunidade ou que impliquem qualquer deslocação", e à indignada reacção da Associação de Pais do agrupamento.

Os professores de Paredes de Coura causaram tamanha reacção, não pelo seu autruismo quando iniciaram estes projectos, mas sim quando decidiram acabar com a injustiça a que eles próprios se tinham sujeitado. Estes homens e mulheres decidiram terminar com horas de trabalho não reconhecido, com o trabalho extraordinário necessário para compensar o tempo destas actividades, com despesas não reembolsadas, com uma função social que desempenham gratuitamente porque não há meios nas escolas. Estes homens e mulheres decidiram romper com aquilo a que se haviam comprometido nos últimos anos e que consistia em “algo a troco de nada”. Passaram a exigir o seu direito de ver reconhecido (e pago) o trabalho e esforço que desenvolvem e, só por isso, chamaram a atenção sobre si.

Mas ao invés de chamarem a atenção dos justos, provocaram antes a indignação das almas que eles próprios ajudaram a produzir. Estes são os pais que a sociedade do “algo em troca de nada” produz. Uma sociedade que reivindica direitos adquiridos no berço sem se preocupar com quem paga; que proclama a necessidade de obter e ignora a habilidade de criar; que acredita que o consumo é que gera produção ou que a desgraça é a maior virtude e que o sucesso o pior defeito.

Uma sociedade e uns pais que, depois de acarinhados “à borla” e à custa do trabalho de outros, se viram para os (supostos) benfeitores em vez de denunciarem as injustiças, é uma sociedade e são uns pais que não têm futuro. Os seus filhos exigirão ainda mais e estarão dispostos a contribuir ainda menos.

Este tipo de austruísmo instala a injustiça, normaliza o “algo em troca de nada” e transforma o “bem comum” em prejuizos individuais. Promove o direito sem dever, o consumo sem produção, a riqueza sem esforço. Promove uma sociedade canibal que maltrata e enxovalha os autruístas quando estes nada mais têm para dar, porque a dádiva se torna a norma, e a sua falta implica infracção.

Numa sociedade justa, o “bem comum” é – e tem de ser – a soma de todos os bens individuais, um bem comum perfeitamente indentificável e objectivamente quantificável. Uma sociedade justa terá de retribuir e reconheçer os que para ela contribuem e a estes prestará homenagem. O bem individual de cada um será a recompensa pela sua contribuição para a sociedade que necessita do que cada individuo lhe disponibiliza. Essa será a sociedade livre e justa, em que todos beneficiam do trabalho de cada um, e em que ninguém vive para ninguém nem às custas de ninguém. O contrário não só promove a miséria, como a termo transformará os mais capazes em miseráveis, porquanto esse será o código moral pelo qual serão recompensados.

A Razão, a mente e inteligência são ferramentas poderosas que garantem ao Homem a sua sobrevivência. As escolas e os Professores são recursos valiosíssimos de qualquer sociedade. Quando eles próprios se valorizarem dessa forma, e se fizerem recompensar nessa medida, a injustiça deixará de ser possível.

Na injustiça intervêem os “predadores” e as “vítimas”. Os primeiros defendem-na no seu próprio interesse. Os segundos possibilitam-na ao abrigo de um código moral contra natura, que lhes é apregoado pelos primeiros. Eduquem-se as mentes e não haverá vítimas. Acabem-se com as vítimas e não haverá injustiça. Os “predadores” não terão outro remédio senão virar-se uns contra os outros.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Apelo à Educação

Primeiro pensei, depois agi, também escrevi e até falei o que me parecia razoável e essencial nas questões que atravessam a Educação neste momento, e que são apenas uma parte da questão. Hoje vou apenas partilhar uma história que gostaria que chegasse a todos os professores, educadores e formadores.

“Eu... eu lamento estar tão atrasado, patrão, mas... mas eles não abriram o jogo até ao último minuto... só mesmo quando estava prestes a começar... Chamaram-me para uma... uma reunião estratégica... estava lá um homem que era delegado do... do Concelho de Unificação... era um fantoche do director-geral... que por sua vez é um fantoche nas mãos do secretário de estado... O que eles queriam de mim era... eles queriam que eu assinasse uma série de passes... para que alguns dos rufias pudessem entrar... para que pudessem iniciar confrontos lá dentro e cá fora ao mesmo tempo... para parecer que eram mesmo os nossos trabalhadores... eu recusei assinar os passes.”

“Recusaste? Depois de eles terem aberto o jogo?!”

“Mas... com certeza, patrão... acharia que eu alinhava nesse tipo de jogo?”

“Não, rapaz, não. Claro que não, só que...“

“O quê?”

“Arriscaste o pescoço.”

“Mas tinha de ser!... Não os podia deixar destruir a fábrica, podia?... Por quanto tempo mais podia eu continuar a esconder-me? Até que lhe cortassem o pescoço a si, patrão?... E como poderia eu salvar o meu pescoço se fosse à custa do seu?... Percebe, não percebe patrão?”

Ele acenou, percebia. E enquanto o rapaz lhe descrevia a forma como fugiu da reunião, como procurou pelo encarregado para o avisar, como descobriu que os telefones haviam sido cortados ao tentar ligar para sua casa, como correu para o carro para ir ao seu encontro, ele percebeu muito mais. Percebeu que o rapaz era agora um homem inteiro, bem diferente daquele fiscal que lhe havia sido imposto na fábrica por uma alínea de um artigo de entre os milhares de documentos, directivas, regulamentos e leis do Concelho de Unificação e do governo.

“Mas eles devem ter-me seguido e... foi quando dispararam... no parque de estacionamento... e só me lembro de cair... quando abri os olhos... eles tinham-me lançado lá em baixo... no rio”

“No rio?! Lá em baixo?!” disse o patrão, olhando para os 200 metros de ravina que os separavam da margem.

O rapaz acenou e olhou vagamente na direcção da ravina “Sim... lá em baixo mas... mas então comecei a trepar... eu queria... eu tinha... tinha de sobreviver o tempo suficiente para contar a alguém... que lhe contasse a si...” Com esforço, o rapaz endireitou um pouco a cabeça e olhou-o nos olhos com um renovado orgulho, “patrão, é esta a sensação de... de querer muito uma coisa... de querer algo desesperadamente e... fazê-lo?”

“Sim rapaz, é esta a sensação.” Ele sabia que o imberbe fiscal tinha aprendido a admirá-lo e às suas fábricas por, diariamente, ter visto, convivido e conhecido a verdade. Mas ficou surpreso como, em apenas um ano, o fiscal se havia tornado num homem capaz de sacrificar a sua vida por alguém que lhe havia sido apontado como um ganancioso capitalista e por uma fábrica proclamada como um antro de escravidão e exploração. “Mas, rapaz, ainda não acabou. Tens de aguentar até que eu te leve a um médico”

O rapaz abanou a cabeça. “Não... eu sei que acabou... não adianta enganar-me a mim próprio... estou acabado”. Depois, como se recordasse a sua vida antes da fábrica, acrescentou “Que é que importa, patrão?... o homem é apenas matéria... orgânica... química... a morte de um homem não faz... não faz mais diferença que... que a morte de um animal.”

“Sabes muito mais do que isso” disse o patrão.

“Sim... acho que aprendi” sussurrou. “Eu sei... as tretas que nos ensinaram... tudo o que disseram... a vida ou... a morte... que é tudo relativo... que não faz diferença...” Parou e recompôs a cara com um sorriso sofrido. “Mas para mim faz.... e talvez mesmo para os animais também... só que... eles dizem que não há valores só... só hábitos sociais... que o homem não interessa... que a sociedade é mais importante... o bem comum... não há valores absolutos...”

O patrão sorriu de forma tranquilizadora, deixando-o saber que reconhecia o quanto aquele fiscal tinha aprendido e o quanto havia mudado.

Então os olhos do rapaz, agora homem, ganharam uma nova expressão, uma nova serenidade, “eu gostaria tanto de viver... patrão... meu Deus como gostaria... não porque esteja a morrer... mas porque descobri... agora... o que significa viver... engraçado, patrão... sabe quando é que aprendi?... na sala... quando arrisquei o pescoço... quando os mandei a todos à merda... Há... há tantas coisas que gostaria de ter aprendido mais cedo mas... não vale a pena... lamentar... chorar sobre o leite derramado.” Olhou para o peito e antes de fechar os olhos acrescentou “Leite ou... sangue...”

“Ouve rapaz” disse o patrão abanando-o “quero que vivas”. Carregando-o nos braços gritou “aguenta-te António”.

“António?!” Disse o rapaz, ouvindo o patrão pronunciar o seu nome pela primeira vez desde que havia sido enviado para a fábrica há um ano, “já não sou o «comissário»... o «relativo»?” perguntou orgulhoso.

“Não. Já não. Agora és uns perfeito absoluto, e tu sabe-lo”

“Sim, eu sei” disse sem gaguejar “e conheço mais absolutos. Isto é um!” Afirmou, apontando para a ferida no seu peito. “Isto é um absoluto, não é?” E prosseguiu como se as palavras fossem uma anestesia contra a dor “E que os homens não podem viver se... se filhos da puta como... como aqueles do governo... se safam com coisas como... como o que se está a passar aqui hoje... se tudo se transformar numa farsa... em que nada é real... os homens não podem viver assim... isso é um absoluto, não é?”

“É António. Isso é um absoluto” e encostou os lábios na testa do rapaz, como quem beija um filho, com a solenidade de uma despedida.

“Patrão, eu... gosto de si...” e fechou os olhos pela ultima vez.

Ele caminhou e carregou-o nos braços como se essa fosse a forma de prestar uma homenagem, um último tributo, à vida – ao homem – que se extinguiu nos seus braços. Caminhou invadido por uma raiva intensa demais para identificar, uma enorme pressão interior: era o desejo de matar.

O desejo não era dirigido aos rufias anónimos que haviam disparado, nem aos burocratas que haviam contratado esses rufias, mas aos professores daquele rapaz que o haviam entregue, desarmado, à mercê de todas as armas. Era dirigido aos suaves e seguros assassinos das escolas e universidades que, incompetentes para responder às questões da demanda pela Razão, tiram prazer em amputar as jovens mentes que lhes são confiadas.

Algures, pensou ele, estava a mãe daquele rapaz, que tremeu de preocupação ao ver os seus primeiros passos, enquanto o ensinava a caminhar; que mediu cuidadosamente as refeições, enquanto o alimentava; que seguiu à risca as indicações médicas e científicas na sua dieta e higiene, protegendo aquele corpo que ele carregava agora moribundo. Uma mãe que o havia de enviar para ser transformado num neurótico torturado, por homens que lhe ensinaram que ele não tinha mente e que nunca deveria tentar pensar. Tivesse ela recusado alimentação àquela criança, pensou ele, ou tivesse misturado veneno na sua comida, e teria sido bem mais simples e menos fatal.

Ele pensou em todas as espécies que ensinam e treinam os seus jovens na arte da sobrevivência – os gatos que ensinam as crias a caçar, as aves que se esforçam sem reservas para ensinar os pequenos seres a voar – e no entanto o Homem, cujo meio de sobrevivência é a mente, não só falha em ensinar as crianças a pensar, como dedica a educação da criança ao propósito da destruição do seu cérebro, a convencê-las de que o pensamento é fútil e perverso, antes mesmo que elas comecem a pensar.

Da primeira palavra dirigida às crianças até à última, é como uma série de pequenos choques destinados a pararem um motor, a sabotar a energia das suas consciências. “Não faças tantas perguntas!”; “Quem és tu para pensar?”; “É assim porque eu digo!”; “Não discutas, obedece!”; “Não tentes entender, acredita!”; “Não sejas rebelde, adapta-te”; “Não dês nas vistas nem sobressaias, integra-te”; “Não reivindiques, compromete-te”; “O coração é mais importante do que a cabeça”; “Que é que tu sabes? Ouve mas é os teus pais”; “Que é que tu sabes? A sociedade sabe o que é melhor para ti”; “Quem és tu para protestar? Todos os valores são relativos”; “Quem és tu para quereres escapar da bala de um rufia ou da agressão de um burocrata? Isso é apenas uma perda pessoal, o bem comum é mais importante”

Os homens estremeceriam, pensou ele, se vissem uma ave arrancar as penas das asas das suas crias, e depois as encaminhasse para fora do ninho numa luta pela sobrevivência, no entanto é isso que eles fazem às suas crianças.

Armado apenas com frases vazias e sem significado, este rapaz foi lançado na luta pela existência, caminhou inseguro, tacteou na escuridão, através de um breve e condenado esforço, gritou o seu indignado e perplexo protesto, e pereceu na sua primeira tentativa de levantar voo com as suas asas mutiladas.

Mas existiu outrora um tipo diferente de professores, pensou ele, que moldaram os homens que construíram este país; ele pensou que as mães se deveriam ajoelhar e procurar esses homens e mulheres, encontrá-los e suplicar-lhes que regressassem.

Ele passou os portões de entrada na sua fábrica sem dar conta dos guardas que o deixaram entrar, estarrecidos com a expressão que levava na cara e com o fardo que carregava nos braços; ele não parou para ouvir o que diziam, enquanto apontavam para os tumultos à distância; ele prosseguiu a sua lenta e solene marcha em direcção à luz que lhe indicava a porta do edifício da enfermaria.

Ele entrou na sala iluminada, cheia de homens, pensos ensanguentados e o cheiro de anti-sépticos; ele depositou o seu fardo numa marquesa, sem explicar nada a ninguém, e saiu a porta sem olhar para trás.

Ele caminhou na direcção do edifício principal, subiu as escadas que o levavam ao seu gabinete, à sua secretária, àquilo que ainda restava do seu mundo e parou, sem se sentar. Afastou a cadeira como quem afasta um último amigo, num gesto próprio de quem afasta algo que o impede de tomar uma derradeira decisão; ele abriu a gaveta, retirou o revolver e ajoelhou-se no lugar onde ao longo de 20 anos tinha criado, da sua cadeira, da sua mente, da sua capacidade, o maior império industrial que alguma vez existira.

Reuniu toda a sua raiva num último fôlego e gritou bem alto não como uma súplica, mas como uma ordem emitida em nome de todas as mães deste mundo: “VOLTEM! Onde quer que estejam, voltem.”.

Levantou-se num movimento enérgico e, de arma em punho, apressou-se ao pátio para se juntar aos operários decidido a lutar com eles pelo direito de reconstruir o seu mundo, com a mesma determinação de há 20 anos. A diferença para então é que o fazia agora como um selvagem, com a sua arma e não com a sua mente.

Esta história foi inspirada e adaptada, pelo meu punho, de um trecho do romance “Atlas Shrugged” . Ela é dedicada a todos os que de alguma forma lidam com as novas gerações e com a sua formação. A todos rogo para que nunca se esqueçam de que seja qual for o “sistema”, as “leis” ou as “regras”, serão sempre as pessoas e as mentes que servem a educação. Serão sempre as vossas mentes, decisões, atitudes e acções, a definir a natureza daqueles que educam. A todos peço que voltem!

domingo, 25 de janeiro de 2009

A transparência é incolor

Já por várias vezes ouvimos a expressão "áreas cinzentas" ser aplicada para descrever situações ou eventos pouco claros. No entanto, a marca dos nossos tempos tem sido a propagação de valores relativos, subjectivos... irracionais. "Só sei que nada sei" é para mim a negação do humano.

Enquanto ontem anotava uns pensamentos, cruzei-me com esta pérola onde se fazia o seguinte apelo: " "(...)E por favor não baseie a sua resposta na falácia das expectativas racionais(...)". Vindo de um professor é, à primeira vista e no mínimo... surpreendente. Além de ter deixado a promessa de lá voltar, fui mesmo convidado a fazê-lo depois de instintivamente lá ter deixado cair um breve desabafo. Voltei, desta vez com tempo, e percebi que afinal o artigo fazia parte de um ensaio mais alargado composto por três partes:

A cor da verdade é o cinzento (parte 1)
A cor da verdade é o cinzento (parte 2)
A Cor da verdade é o cinzento (parte 3)

Tive dúvidas sobre se deveria discorrer de um texto sobre economia escrito por um economista. O mais certo seria discorrer e ser corrido. Mas se enquanto lia pensei, porque não escrever o que a mente produziu? Não é a Razão própria dos Homens? Então porquê silenciar o que a mente produz?

Não tenho quaisquer veleidades em produzir pensamento económico sustentado. Dificilmente sobreviveria a um exercício detalhado sobre qualquer doutrina economica ou sobre qualquer economista - com a possivel excepção de Adam Smith. Mas sabendo que as palavras têm um significado e com a convicção de que as contradições são impossíveis, descodificar ideias à luz da Razão torna-se um exercício... humano.

O meu breve desabafo valeu-me uma questão: "Eu não sei se "ficou banzado" vem no sentido de concordar ou discordar com as expectativas racionais. Mas isso é uma pergunta em aberto que lhe deixo. Em todo o caso, os professores de economia desejavelmente têm capacidade crítica. Por isso existem diversas escolas de pensamento. (...) Sobre a formação de expectativas: eu não acredito na ideia de que os agentes não cometem erros sistemáticos de previsão. Isso causa-lhe estranheza? Respeito quem acredite, mas apenas é um pressuposto. Ninguém o demonstra quando o usa."
Não consigo encontrar forma de discordar das expectativas racionais sem renunciar ao homem como ser racional. Logo, as expectativas racionais são uma premissa absoluta. Reconheço, isso sim, - e denuncio - um código moral que nos é imposto há séculos para nos fazer crer no contrário. A apologia de que tudo é relativo e que não há certezas, a proclamação de uma dimensão comum em simultâneo com a renuncia da existência das suas partes.

A instituição de um "bem supostamente comum" definido por uma entidade singular é uma contradição. Mas não havendo contradições há uma premissa que tem de ser revista: "o bem comum". Adam Smith define o "bem comum" como a soma das acções dos individuos na defesa do seu interesse próprio. Eu concordo. Mas as várias (eu chamaria novas - no contexto da história) escolas do pensamento querem um e ao mesmo tempo recusam a existência do outro. Fazem-no pela força, pela lei, pela limitação das liberdades necessárias à sua existência.

Escolas de pensamento: o termo "pensamento" está mais correcto do que se poderia imaginar. Sendo a Razão a essência do humano ela é intrínseca ao homem. Logo a Razão está a montante do pensamento, e à mercê deste. É por isso muitas vezes subvertida e só o pode ser por homens de Razão. É por isso que a imposição da obrigatoriedade de accorrer a todos nos é apresentada como virtude. Esta linha de... pensamento... é mais perigosa do que se possa imaginar. Ela não se limita a promover os incapazes e os necessitados. Na medida em que a factura é sempre enviada aos mais capazes, ela tem o potêncial para transformar construtores em salteadores ou produtores em pedintes. Se alguém, no seu próprio interesse, pode deixar de contribuir para passar a apenas receber, é inteiramente racional que o faça. É o código moral de cada individuo que separa os que resistem dos que cedem à tentação. Um código moral que está extinto, substituido pelas "várias escolas de pensamento".

Escolas com a capacidade de esconder a verdade e o óbvio dos olhos (e das mentes) da massa anónima. Que têm até a clareza de classificar de inimigo aqueles que consigo partilham o mundo irracional. É uma manobra inteligente para esconder o verdadeiro inimigo: a Razão.

Ao lêr "o Estado não deve conduzir acções de qualquer tipo: nem sequer supply side politics, que os mais fervorosos fãs do livre funcionamento do mercado defendem." não posso deixar de pensar como é que um "fervoroso fã do livre funcionamento dos mercados" pode defender o intervencionismo na oferta. Considerando o mercado como o conjunto da oferta e da procura, isso seria aplicar uma ideia não ao mercado mas apenas a metade do mercado. A não ser que o mercado tenha passado a ser constituido apenas pela procura, o que me parece irracional. Num exercíccio simples se vê como esses fãs, ultra ou neo-liberais (como se usam chamar) não são a solução pois fazem parte do problema. No entanto são claramente classificados como o grande inimigo para esconder a verdade.

No seguimento surgem algumas perguntas (dirigidas ao inflaccionista - Nuno Branco) às quais não darei uma resposta directa, mas sobre as quais não pude deixar de... pensar.

"Resulta da afirmação do Nuno que todo o sistema de segurança social deveria desaparecer cabendo a cada indivíduo a gestão das suas reformas?"
O conceito de propriedade e de liberdade são absolutos. Um individuo só pode ser considerado proprietário das SUAS reformas se for LIVRE para decidir sobre elas. Propriedade condicionada não é propriedade: é usofruto.

"assumo também que é contrário à emissão de moeda por uma autoridade do tipo Banco Central(...)"
Assumindo que a função primordial da moeda (dinheiro) é guardar em valor o produto do trabalho de cada um (facilitando a troca deste pelo produto do trabalho de outros), um homem pode considerar-se automáticamente destituido do produto do seu trabalho quando é obrigado a guardá-lo sob a forma de um documento (papel-moeda) cujo valor depende do arbítrio e acções alheias (governos). É mais uma questão filosófica do que económica. O que leva à alteração dos preços na maior parte dos casos não é o aumento do valor da riqueza mas sim a perca do valor da moeda. Invariavelmente devido a emissão excessiva - quer em forma de dívida publica (governos) quer em forma de liquidez (bancos centrais).

Filosoficamente podemos até perguntar a que se devem os aumentos tradicionais de ano novo. Será que nascem muitas pessoas em Janeiro? Será que se produz menos depois do Natal? Ou será que se assumiu (de forma irracional) que em cada ano que passa as nossas notas valem menos? Que há mais dívida? Que há mais moeda emitida sem que haja necessáriamente mais riqueza criada?

Uma coisa sei. Desde sempre que os governos procuraram uma forma de emitirem a seu próprio dinheiro. Antigamente quando a coroa ficava invariavelmente sem dinheiro mandava recolher todas as moedas (em ouro na época) e retirava uma parcela a cada uma, devolvendo-as mais tarde à circulação e aproveitando o que tinha retirado para cunhar mais moeda que guardava para si. A consequência era que a moeda devolvida tinha menos valor. Se antes uma era suficiente para comprar um pão, após esta operação passavam a ser necessárias duas. Este é o significado etimológico de inflacção. Que os manuais definam coisa diferente - por conveniência ou necessidade - só significa que abdicaram da racionalidade.

Pois bem, o século XX foi um sucesso na medida em que os governos conseguiram finalmente uma forma de emitir a sua própria moeda. Até conseguiram forma de lhe retirarem uma parcela sem que ninguém veja, salvaguardando assim o poder de continuar a fazê-lo indefenidamente. Foi o sucesso de uma entidade abstracta e supra humana e a derrota do Homem e da Razão.

Aceito que seja pouco provável que cada um ensine mais do que aquilo que aprendeu dos seus professores. Mas estou convicto que a verdade e a Razão são incolores e que essa característica as torna, infelizmente, fáceis de esconder.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Como aqui chegámos?

É o que apetece perguntar um dia depois da Educação e da avaliação dos professores ter voltado à ordem do dia, após o oportunista projecto do CDS-PP ter sido chumbado. Aliás seria engraçado (se não fosse triste) como a Educação deixou de ser laboratório experimental para passar a ser arma de arremesso político capaz de criar as mais estranhas alianças circunstânciais! A questão assolou-me logo pela manhã quando recebi este comunicado da CONFAP, e acabou por ser o "moto" para este Sábado.

Uma vez mais, um rol de desgraças apocalípticas e de "emergências sociais" são-nos apresentadas como justificação para mais uma atitude de força. Força em oposição à Razão, claro! Tragédias anunciadas a essa multidão anónima que é o povo, com palavras cuidadosamente escolhidas para, primeiro: infligir dor e compaixão; depois: anunciar e prestar tributo à incapacidade e à necessidade; por fim: instigar o medo e o pânico. Sempre no intuito de toldar as mentes e alheá-las da Razão.

O apelo à dor e à compaixão ou o tributo à necessidade e à incapacidade são patentes em palavras e expressões como "ficando os alunos privados do seu direito de se alimentarem" ou a mais aterradora "tendo passado fome» ou como «A alimentação (...) é (...) uma “necessidade social impreterível”» ou ainda "suprir a necessidade de acompanhamento dos seus filhos". Parece até que o país tem apenas orfãos ou provavelmente estamos a falar do Zimbabué! Atentem ainda na ameaça velada e no apelo à força (em deterimento da Razão) na pergunta "Ou será que privar uma criança ao seu direito de se alimentar não é um crime?"

Mas depois, claro, como ainda conservam uma réstia da condição humana à qual não conseguem (ainda) renunciar, arrogam-se eles próprios da sua razão. Mas a razão pela força... Pela força da lei. Uma razão a ser decretada (e interpretada abusivamente) pela força de um tribunal também ele produto de um código moral que nos é imposto há mais de um século: "No acórdão, ficou claro que o Supremo Tribunal Administrativo considera que 'a intervenção do Governo, (...) é justificada por ser essa entidade que deve interpretar e defender a satisfação de necessidades sociais impreteríveis'."

Pior ainda é o retomar da ameaça e o reforçar do terror afirmando que "o Supremo defende que 'embora o direito à greve constitua um direito fundamental, não possui um carácter absoluto, podendo colidir com outros direitos fundamentais'". Por esta ordem de ideias, o estado (essa entidade abstracta e supra humana - normalmente sob o poder de meia duzia de iluminados e longe do escrutínio da Razão que nos assiste - e que institui a seu belo prazer o que é ou o que não é direito fundamental) poderia decretar a proibição de qualquer cidadão se demitir das suas funções ou até de se despedir dos seus empregos.

E quase no fim lê-se que "É o caso do direito constitucional ao ensino". Mas parecem desconhecer que o ensino tem a ver com a Razão e não com a fome. Tem a ver com a capacidade e não com a necessidade. Não a razão pela força, claro está, mas a Razão pelo conhecimento. A Razão que nos impele a agir, a construir e a criar em liberdade ou a Razão que nos dá o direito de decidir não o fazer desde que estejamos dispostos a abdicar do producto dessa criação sem pedir nada a ninguém. Afinal, a Razão que nos deveria fazer optar por prestar tributo à virtude e capacidade humana e não a enaltecer e as suas fragilidades, incapacidades ou necessidades.

Num comunicado em que se faz a apologia da fome, da incapacidade e da desgraça procura-se não apenas a chancela da razão, mas também o controlo e influência na chave para a razoabilidade: o ensino.

Em relação à avaliação de professores não me alongo muito, deixando apenas a nota de que o que defendo para a educação (nesta sua pequena parte) está patente no texto desta petição.

Quanto às greves dos professores um sentimento tenho de libertar: Em greve permanente têm os professores estado nas últimas décadas. Finalmente começaram a ser professores e a lutar pelo ensino. Aquele ensino que faz a apologia da Razão e do conhecimento como a maior virtude do Homem e que lhe permitirá matar a fome através da capacidade para pensar e construir e não apregoando a desgraça ou instigando o medo.

Bom, pelo menos a maior parte. É que também hoje encontrei esta pérola de um professor em que a certa altura se pode ler "(...)E por favor não baseie a sua resposta na falácia das expectativas racionais(...)". Fiquei banzado. É que isto é algo que não se espera ouvir de um Professor. Irei ler mais atentamente o ensaio, e oportunamente lá voltarei.